SYMBOLOS

Revista internacional de
Arte - Cultura - Gnosis
A RODA. O SÍMBOLO DOS SÍMBOLOS*
FRANCISCO ARIZA

Como já destacamos ao começo deste capítulo, a roda é um símbolo abundantemente tratado em diferentes lugares da obra de Federico, se bem que seja aqui, no Simbolismo da Roda, onde naturalmente o considera com maior amplitude.28 Não nos esqueçamos que este símbolo forma parte muito importante de seu ensinamento, seja tomando-o em si mesmo, em sua estrutura geométrica (centrada em sua correspondência com o ser humano), ou considerando-o como um modelo que ajuda também a compreender o caráter cíclico da história e, ao mesmo tempo, determinados acontecimentos ocorridos nela que revelam a presença das ideias metafísicas em seu desenvolvimento e que nos falam diretamente do supra-histórico, do que não está sujeito ao tempo e ao espaço e que na roda estaria simbolizado pelo centro.

Sem dúvida, a roda é um símbolo «recorrente» em toda a obra de nosso autor, o que se dá não só porque a encontramos sem exceção em todas as culturas e civilizações desde tempos imemoriais, mas também:

pelas inúmeras possibilidades que traz, pela diversidade de campos que abarca, e pela ação ordenadora que exerce no estudo e no direito, indispensável em qualquer investigação séria. (Capítulo II).

De fato, as ideias-força principais contidas no símbolo da roda nos oferecem os elementos doutrinais essenciais para poder enfrentar qualquer investigação sobre o amplo campo da Simbólica e da Filosofia Perene, indistintamente de qual seja o ponto de vista ou o tema que aborde essa investigação, tendo sempre presente que a roda não é só um símbolo do movimento, ou seja da «rota mundi» cosmogônica, mas também um símbolo do imutável, do «centro do mundo», e por conseguinte uma porta aberta permanentemente para a Metafísica e a possibilidade de sua realização. Se a roda móvel simboliza o tempo cíclico, recorrente, o ponto central simbolizaria a eternidade, um presente sem sucessão temporal alguma. Esta é com toda segurança a ideia mais importante contida neste símbolo primordial, a saber: que simboliza tanto o manifestado como o não-manifestado, tanto o imanente como o transcendente, e nosso autor vai assim nos recordando isso de quando em quando, de forma rítmica e «circular».

O manifestado se expressa através do próprio movimento da roda e dos raios que conectam a periferia móvel com o centro, que é o único de seus elementos que permanece imutável em sua rotação, e este fato, facilmente comprovável, mas sempre assombroso, lhe outorga o pleno direito de simbolizar o não-manifestado, pois este também é imutável com relação à mutabilidade ou movimento a que está sujeita a manifestação inteira. Por outro lado, o centro, ou cubo da roda, é o único elemento que não participa do movimento, e não obstante é graças a ele que o próprio movimento, e, em consequência, a roda inteira, existem. «É o vazio do centro que torna a roda útil», lemos no Tao-te-King. Isto já nos evidencia de imediato uma hierarquia e uma dependência do manifestado com respeito ao não-manifestado, exatamente o mesmo que sucede com a horizontal em relação à vertical, ou a circunferência com respeito ao ponto central: sem este ela não existiria, mas o ponto central, esteja ou não representado, não necessita da circunferência. É sua causa e seu princípio.29

Em Simbolismo e Arte, mais especificamente na nota 4 do primeiro capítulo, Federico cita ao mestre hermético renascentista John Dee, que em sua obra Mônada Hieroglífica afirma o seguinte:

É, pois, pela virtude do ponto e da mônada que as coisas começaram a ser desde o princípio. E todas as que são afetadas na periferia, por maiores que sejam, não podem, de nenhuma maneira, existir sem a ajuda do ponto central.

Estamos ante uma certeza incontestável: o centro é a origem de todas as coisas. Também é onde se conciliam as oposições, ou seja, onde a dualidade (e a multiplicidade à qual dá lugar) deixa de ser dessa forma e retorna à sua origem. Trata-se, diz nosso autor, de uma

energia latente que existe em todas as coisas, verdadeiro fator de equilíbrio, e projeção vertical do eixo do céu sobre o plano horizontal da Terra. É o pilar invisível, ou eixo, a partir do qual foram criadas todas as coisas e ao qual todas as coisas retornam. Lugar de paz; a luta e o desequilíbrio chegaram ao seu fim.30

Estas últimas palavras nos levam a considerar outra questão importante associada ao centro: que dele surge também a ideia de equilíbrio, que representa a ação da Unidade metafísica no próprio seio da manifestação. De fato, esse equilíbrio, imprescindível para que haja uma ordem ou cosmos, é expressa pelo centro da roda, que se encontra «equidistante» de qualquer ponto da mesma, ou seja, que está no «meio», isto é, em um «ponto» de referência vertical em torno ao qual todas as coisas se dispõem em harmonia.31

Da irradiação do ponto central nasce todo o manifestado, simbolizado pelos raios e pela circunferência. Toda a potência do centro se transfere à periferia, à circunferência, por intermédio dos raios (raios) que partem dele e abarcam a totalidade da figura da roda. Do ponto de vista geométrico, o ponto central é a única imagem que se pode fazer da Unidade metafísica, que é o verdadeiro Centro que, como o Ser universal, está em todas as coisas, às quais dirige do interior, e simultaneamente as transcende, pois não pode ser contida por nada. Dá a vida ao mundo como um gesto gratuito, por um movimento de sua Graça, a partir de seu insondável Mistério.32

No centro da roda se acha um personagem que a tradição hindu denomina Çakra-Varti, o servidor da roda, idêntico ao mítico Taranis druídico, ao «sábio perfeito» dos chineses, ao Ometéotl náhuatl (e outros pares de divindades) que deitados e imóveis dão a vida, representados sempre na atitude impassível do princípio, de onde emana toda a manifestação e as mudanças e retornos das formas existenciais.

Portanto, seu total e absoluto não-condicionamento é para nós o arquétipo por excelência, e também o mais alto grau possível do que se entende por liberdade.

O ponto e a circunferência é o esquema geométrico mais simples e, talvez por isso, o mais sintético, e, consequentemente, o que melhor se presta à didática iniciática. É, inclusive, o que nos faz ver, com mais clareza que qualquer outro, que o símbolo é verdadeiramente

a impressão visível de uma realidade invisível. É a manifestação de uma ideia que assim se expressa a nível sensível e se faz apta para a compreensão.33

Descripción: EL símbolo de la rueda: centro y círcunferencia

A mesma simplicidade geométrica do ponto e da circunferência, que conjuntamente formam a figura do círculo ou roda, permite que possamos entender com facilidade o fato de que o símbolo é, na verdade, o veículo das ideias e expressa uma realidade que é inerente ao homem e ao cosmos inteiro, como nos recordava nosso autor anteriormente, e que voltamos a encontrar nesta outra citação extraída novamente do Programa Agartha. Ali se diz que na vida e no mundo tudo tende a realizar o movimento circular,

presente tanto nas expressões naturais como nas humanas. De fato, uma reta ou sucessão de pontos que progride indefinidamente, descreve um movimento circular que a curvatura do espaço faria regressar ao seu ponto de origem. Em forma de círculos se expandem as radiações de energia, e esses redemoinhos ou espirais formam as estruturas de céu e terra, como bem se pode observar no sideral e no molecular. O círculo, junto com seus símbolos associados, é, pois, uma das imagens básicas do conhecimento simbólico, e voltaremos uma vez ou outra a esse tema.

Ante esta evidência irrefutável, não nos estranha em absoluto que todos os povos da Terra, desde os tempos mais distantes e pré-históricos, tenham considerado a roda como um modelo do cosmos em toda a extensão do que isto significa, a ponto de não exagerarmos em absoluto se dissermos que estamos diante do que podemos denominar de o «símbolo dos símbolos». Não falamos gratuitamente, pois se prestarmos bastante atenção, a roda - ou o círculo - estão associados a todos os símbolos fundamentais da Cosmogonia, muitos dos quais estão incluídos ou aparecem em sua própria estrutura, como outras tantas possibilidades contidas dentro dela. Este é o caso da já mencionada cruz quaternária, ou da cruz de seis raios, ou de oito ou doze, ou seja, de símbolos que têm uma significação precisa relacionada com a estrutura e o processo cosmogônico.

Naturalmente, o número de raios, ou rádios, inscritos dentro da roda lhe darão várias significações simbólicas, tudo isso relacionado com as propriedades de cada número e suas correspondências com as formas geométricas, que se referem «a realidades essenciais do universo e do homem».34 O mesmo diríamos dos círculos concêntricos que giram em torno do ponto central como representação dos diferentes mundos ou graus da Manifestação, tomados em sua integridade.

Da periferia para o centro são estabelecidas essas hierarquias, sendo o próprio centro a máxima hierarquização, como símbolo, no plano, da unidade original vertical que produz por graus todas as coisas, e à qual necessariamente elas retornam de forma sucessiva. Se uma gota de água cai em uma lagoa, forma um campo de irradiação que chega até seus próprios limites. Do ponto de vista de um ser situado nesse limite, e, portanto, um ser sucessivo, o retorno à sua fonte original se realizaria através da ruptura dos diversos círculos concêntricos, que lhe seriam apresentados como imagens de mundos ou estados espaço-temporais diferentes, escalonados, os quais impedem, assim, sua fusão com o centro. Ou envolvem e ocultam essa gota original, essa semente primitiva, que se vislumbra como anterior no tempo.

A figura simbólica de um círculo (ou seu equivalente quadrangular) que contém outros círculos internos, considerada do ponto de vista de sua expansão (ad-extra), é a sucessão de degraus intermediários que fazem possível a existência de qualquer criação. Tomada do ponto de vista da periferia, é a viagem hierarquizada (ad-intra), ou a escala sucessiva que se percorre ao pretender a fusão com o centro primitivo. (Capítulo II).35

Na verdade, nessa viagem, vista da periferia para o centro, o raio representaria a ruptura de nível necessária para «escapar» da rotação perene da roda e encaminhar nossos passos para o centro, o qual é um espaço sagrado, mítico, um «lugar» arquetípico de nossa consciência, sempre virgem, e por onde é possível comunicar-nos com os estados superiores.36

Quer se tratem de raios ou de círculos concêntricos, todos eles constituem determinados módulos e padrões que expressam a arquitetura sutil do mundo, sua ordem invisível, e, portanto, a arquitetura do Pensamento que o faz possível, cujo fruto é o mundo visível, concreto e sensível. Aquele que na Árvore da Vida corresponde ao plano de Asiyah.37

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Diz-se que Deus fala ao homem através de uma linguagem matemática - o que é totalmente correto - e por isso muitas vezes as figuras simbólicas surgem de um atento olhar nas estruturas geométricas assumidas pelas formas naturais, seja a nível macrocósmico (por exemplo, o desenho traçado pelos movimentos rítmicos e harmônicos dos corpos celestes, e a própria forma desses corpos celestes), ou microcósmico (observando as estruturas impressas no mundo mineral, vegetal ou animal). Como já dissemos, o mundo natural é, em seu conjunto, um símbolo do mundo supranatural, e, portanto, é para nós um veículo de conhecimento através do qual a Inteligência criadora do Grande Arquiteto nos fala. Dito de outra maneira: a Natureza forma claramente uma imagem da Cosmogonia e, como tal, deve-se contemplá-la, mas sem esquecer que ela é isso, uma imagem, e que o realmente importante é apreender o que ela oculta e acumula no interior de suas formas, que mudam constantemente, em comunhão com seus ritmos e ciclos internos.

Entre os muitos exemplos com que nosso autor nos ilustra a esse respeito, tomaremos, por exemplo, o «rodar» diário do sol. Este rodar tem dois «limites» espaço-temporais durante os quais parece «deter-se»: o meio-dia (12 hs.) e a meia-noite (0 hs.), que no ano correspondem respectivamente ao eixo polar dos solstícios de verão (sul) e de inverno (norte). Esta é uma primeira bipartição do círculo da roda, que destaca um «ascenso» e um «descenso» em seu ciclo diário e anual, ritmo que observamos também no aspirar e expirar da própria respiração e na sístole e diástole do coração, e, claro, no dia e na noite. Se fixarmos mais atentamente nossa atenção, veremos que essa cadência rítmica se converte em um quaternário, pois entre o «ascenso» e o «descenso» do movimento solar existem dois pontos equidistantes de ambos os extremos, que no dia seriam o amanhecer (6 hs.) e o entardecer (18 hs.), correspondendo ao eixo horizontal dos equinócios de primavera (leste) e de outono (oeste).

Esses dois eixos, que por serem imaginários não são menos reais, constituem a cruz dentro da roda, sendo esta a imagem viva e a estrutura interna e dinâmica de todo ciclo, do menor até o maior. Desta maneira, às quatro estações do tempo e aos quatro pontos cardeais do espaço, vêm se acrescentar as quatro fases da lua, as quatro etapas da vida humana, as quatro idades do mundo, etc. Assim, vemos estas fases nos quatro elementos constitutivos da matéria (fogo, água, ar e terra) e em suas quatro qualidades (quente, úmida, fria e seca), as quais, unidas entre si, dão lugar a uma roda de oito raios.

Em outra ordem de ideias, esta estrutura da cruz quaternária se faz intermediária entre o ponto central da roda e a sua circunferência, e podemos ver nela, então, o vínculo que une a origem com sua manifestação, e vice-versa, a manifestação com sua origem. Essa cruz é, portanto, um protótipo da Criação e expressa a irradiação de todas as possibilidades existenciais contidas no centro, as quais, ao chegar até seus próprios limites expansivos, geram a circunferência. Disso nos fala precisamente a Tetraktys pitagórica, que também se refere às relações que existem entre a unidade, o quaternário e o denário, perfeitamente descritos na roda. Não é de estranhar então que, e como diz nosso autor, a iniciação na Tetraktys supusesse entre os pitagóricos o conhecimento mais alto, ou seja, a iniciação nos mistérios mais profundos da cosmogonia, da ontologia e da metafísica.38

Os quatro braços da cruz mais o ponto central somam cinco, do qual uma das representações geométricas, vinculada com a roda, é a estrela pentagramática, além disso estreitamente ligada à forma corporal humana. Temos assim a roda de seis raios, que junto a seu centro, nos dá o número sete ou septenário. Também o oito, do qual uma das formas geométricas é o octógono, que, dentre outras significações, tem um caráter de intermediário entre o quadrado de base do templo (a terra) e a abóbada (o céu).

Relacionado com este último está o nove, o número da circunferência, pois

como se sabe, todos os seus múltiplos (e submúltiplos) regressam indefectivelmente a ele, por exemplo: 9 x 2 =18 = 1 + 8 = 9; 9 x 3 = 27 = 2 + 7 = 9; 9 x 4 = 36 = 3 + 6 = 9, etc. (Ibíd.)

Sendo o número da circunferência, o nove é também o número de tudo o que faz referência ao ciclo, caracterizado pelo «começo e o fim» de todo processo vital, seja microcósmico ou macrocósmico. Mas, do ponto de vista do processo iniciático, o nove simboliza a regeneração e o novo nascimento, ou seja, a passagem a outros estados onde o ser desenvolverá outras possibilidades mais realmente universais de si mesmo. Como dizíamos anteriormente, não se deve confundir a circunferência geométrica com aquela outra que simboliza o ciclo vital e espiritual do ser humano; neste ciclo sempre se encontra uma abertura que permite «escapar» de sua reincidência.

Por isso mesmo, na realidade nenhum ciclo está fechado, como não o está a espiral, que aqui seria o símbolo que melhor representaria esse processo de abertura permanente para outros espaços e realidades do ser considerado em sua integridade, e não só em seu estado humano individual. A todo fim sucede-se um novo começo, pois o tempo sempre regenera a si mesmo. Essa é sua qualidade mais importante, ligada, por outro lado, à memória e à lembrança do si mesmo. É óbvio que etimologicamente «nove» e «novo» são equivalentes. Como diz nosso autor:

A solução, ou salvação, está presente de forma imanente nessa mesma roda, de maneira oculta, como se encontra na semente toda a potencialidade da nova árvore, e no ovo a origem do ser.

Recordemos aqui o duplo sentido que tem a palavra «solução»: por um lado, significa resolver, decifrar ou concluir uma questão, e por outro dissolução, desenlace, desate, liberação em definitivo ou eliminação de uma amarra, qualquer que seja.

Centrando-nos na roda de seis raios, ou rádios, devemos dizer que esta tem uma particularidade mágica: o tamanho de um desses raios sempre divide a circunferência em seis partes iguais. Isto é verdadeiramente surpreendente, pois esta «revelação» geométrica «cristaliza» dentro de nós (com toda propriedade) a compreensão do porquê o mundo, ou seja, a manifestação que está simbolizada precisamente pela circunferência, foi «criado» em seis dias, período que não temos de tomar literalmente, pois constitui na realidade um módulo de tempo que relaciona a ideia de criação à ideia de «medida»: o mundo foi criado ou «medido» pelo «raio ou rádio divino» em seis dias, que são na realidade seis períodos ou ciclos temporais, agregando-lhes um sétimo, que na verdade simboliza o não-tempo, situado no centro da cruz tridimensional.

A roda de seis raios é também o símbolo por antonomásia da analogia, e merece que nos detenhamos um momento em sua descrição, tendo em conta tudo o que dissemos até aqui a esse respeito. Esta figura está formada por um eixo vertical central e dois oblíquos que se entrecruzam em seu centro, de tal maneira que, partindo desse centro, são criados dois planos, o «de acima» e o «de abaixo». Os dois têm as mesmas linhas, três, de tal maneira que constituem um ternário, mas as que estão «abaixo» aparecem como se efetivamente fossem um reflexo das que estão «acima». Não em vão, esta é a ideia que se quer ressaltar: que o «de abaixo» é um reflexo do «de acima», ou seja, que apesar de aparentemente serem iguais (daí sua reciprocidade) o fato de um estar acima e o outro abaixo indica uma preeminência hierárquica, destacada pela imagem visual do ternário «invertido».39

É como um objeto refletido no espelho: esse objeto, ao contemplar-se nele, aparece como invertido com relação ao original. O mesmo acontece se nos contemplamos na água de uma lagoa: nossa imagem aparece invertida e projetada «para baixo». Por isso mesmo, todos os símbolos geométricos que falam da analogia são melhor esclarecidos quando se lhes acrescenta uma linha horizontal que passa pelo centro da figura, pois tal linha é efetivamente como um espelho onde, ao contemplar-se o objeto original, se cria imediatamente sua imagem «invertida». É exatamente essa linha horizontal, que é chamada em muitas tradições de «plano de reflexão», ou de « superfície das Águas», que separa e simultaneamente une o mundo «de acima e o mundo de abaixo», ou seja o universal e o individual, respectivamente. De certo modo, essa «superfície das Águas» é a que divide, e une, os planos mais altos da Árvore da Vida cabalística (Atsiluth e Beriyah), dos planos mais baixos (Itsirah e Asiyah).40

Neste sentido, e do ponto de vista metafísico, o Ser universal, ou grande Arquiteto dos Mundos, será sempre maior que seu reflexo, pois Ele é a realidade verdadeira que contém em potência ou virtualmente a sua criação. Mas, do ponto de vista dessa criação, e pelo próprio fato de estar «invertida», é, ao contrário, o Ser universal que está virtualmente contido nela, ou seja: o maior no céu é o menor na terra, e vice-versa. O que mostra que o símbolo do ponto central e da circunferência se presta perfeitamente para ilustrar isto. Esta é «a aplicação do sentido inverso» do símbolo de qual fala Federico quando aborda este tema importantíssimo e essencial que constitui a lei de analogia.

O «raio divino», ao qual fazíamos referência anteriormente, é o «sétimo raio», que está simbolizado pelo centro da cruz tridimensional cujos raios medem a totalidade da roda do mundo, e constitui a estrutura interna das duas figuras que simbolizam respectivamente o céu e a terra: a esfera e o cubo. Este último não é nada além da cristalização da esfera (como o quadrado não é nada além da cristalização do círculo), e vemos em suas seis faces e suas doze arestas, assim como nos 90 graus de cada um de seus ângulos, essa íntima relação com a esfera. Doze é precisamente o número dos signos do Zodíaco, da Roda da Vida.

Mas essa contemplação sintética e unitária sobre o mundo que nos rodeia e do qual formamos parte, e, diríamos inclusive, o sentido verdadeiro do que significa o mito e a busca heroica do supra-humano, fixou-se em nós graças ao Ensinamento hermético e metafísico. Tal Ensinamento será para nós o mesmo que o raio que conecta a periferia da roda com seu centro: um eixo luminoso que nos iluminará em todas as circunstâncias de nossa vida. De fato, se observarmos bem, o Ensinamento tradicional constitui um raio da Roda Cósmica emanado diretamente de seu centro, de seu coração, e, na medida em que compreendamos e realizemos seu conteúdo, nos iremos aproximando cada vez mais desse espaço sagrado e arquetípico, onde encontraremos nossa verdadeira identidade.

Então, esse sol físico que está «entretecido com a estrutura invisível de outro céu»41 e que vemos rotar pelo orbe celeste, iluminando-o, no duplo sentido da palavra (dando-lhe luz e dando-o à luz, ou seja, gerando-o) é o mensageiro de nosso próprio Sol espiritual, metafísico, atuando no interior de nós mesmos, gerando-nos.

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Mencionamos o círculo e o quadrado ou a esfera e o cubo como equivalentes, mas convém ter presente que o primeiro é mais perfeito que o segundo, já que todos os seus pontos se mantém a igual distância do centro, o que permitiu fazer dele um símbolo do Espírito,42 onde a diferença entre o centro e a circunferência desapareceu por completo, pois o Si Mesmo, absolutamente transcendente, se reconhece a Si Mesmo em todas as coisas.

Uma antiga frase da filosofia grega, expressada posteriormente por Nicolau de Cusa, e, de forma geral, por todos os neoplatônicos e hermetistas, nos diz que: «Deus é um círculo cujo centro está em todas as partes e cuja circunferência não está em parte alguma». Por isso, os contrários da periferia e do centro se fazem intercambiáveis. Todo ponto periférico é o centro de um sistema. «Deus está no mundo e o mundo está em Deus». «O rosto dos rostos está velado em todos os rostos». «Deus está no círculo de suas bailarinas e é ao mesmo tempo o centro da dança».

(…) qualquer ponto da circunferência, ao transformar-se em centro, tudo abarca. E qualquer ponto deste círculo, ou sistema, leva de forma inerente, constitutiva, essa mesma possibilidade. A união de contrários deu lugar à simultaneidade do que já não se diferencia: «Transcendência e imanência coincidem em Deus, ao qual se conhece como o Um invisível e indivisível e se o reconhece no múltiplo visível e divisível». O todo está em tudo, e tudo em um.

É por Deus, que nos deu o nascimento físico e espiritual, que conhecemos a Ele mesmo. Não se pode conhecer a Unidade a não ser por si mesma, pois se houvesse algo fora dela que pudesse compreendê-la, deixaria então de ser a Unidade. (Capítulo VI).

Como podemos comprovar por estas citações, através da roda também chegamos a conceber a «doutrina metafísica da Unidade». Na realidade, esta concepção, que supostamente teria que ser o último ensinamento deste símbolo segundo a errônea concepção «evolucionista» que está inserida na psique do homem atual como um dogma irremovível, é, não obstante, o que primeiro o símbolo da roda nos revela quando recebemos pela primeira vez a marca de sua potência imanente. Sem essa ideia-força inicial que se deposita na consciência não pode haver nenhum processo ou trabalho interior que mereça verdadeiramente esse nome, como não pode existir a própria roda sem a emanação da energia que parte de seu centro.

Essa marca ou revelação constitui, falando claramente, a transmissão de uma influência espiritual-intelectual, da qual o símbolo atua como suporte ou intermediário, e

a pessoa que está em condições de compreender poderá ouvir as vozes e o chamado da Tradição e efetivar sua iniciação, ou seja, começar o caminho do conhecimento. (Capítulo IV).

Por isso, precisamente, é que se pode falar da Simbólica como uma via ou caminho iniciático. Ouçamos o nosso autor quando fala da necessidade da instrução iniciática e da aprendizagem gradual na realização do conhecimento, ou seja, do

caminho iniciático através da via simbólica ou mítica ou poética. Porque estas proporcionam, de fato, um meio especialmente adequado, uma base que permite a encarnação, com relação à abertura da consciência e que, por certo, não só modifica nossa mentalidade, mas nossa vida. Pois se somos capazes de ouvir as vozes reveladoras que se encontram em nosso interior mediante um trabalho paciente e delicado, uma arte, chegaremos à convicção de que essas vozes correspondem aos ensinamentos que nos foram dados e que, por outro lado, são os que constituem esse símbolo ou mito que começamos a compreender e que se efetiva ou vivifica em forma ritual no interior da consciência, que dessa maneira adquire categoria universal.43

A influência espiritual é descrita também no hinduismo como buddhi, o «raio divino», que partindo de sua origem única, Âtmâ, passa pelo centro, ou coração, de todos os seres. Portanto, essa tomada de consciência é precisamente o «despertar» para a realidade do que isso significa, ou seja, que esse centro existe verdadeiramente em nós, como dissemos anteriormente, e que nele está a «porta estreita» que nos conduzirá à identidade com o Si Mesmo, ainda que isso, no princípio de nosso caminho, seja visto de forma ainda confusa e indeterminada por sua própria virtualidade. Daí, precisamente, que se fale da iniciação como de um processo gradual de «iluminação»44 que irá abarcando e fazendo-se efetivo na totalidade dos estados do ser, exatamente igual aos raios (rádios) que partem do centro e realizam a totalidade do espaço do círculo ou da esfera.45 A influência espiritual seria no microcosmos o que o Fiat Lux é com relação ao macrocosmos: o Princípio que determinará o passo das «trevas à luz», ou do «caos à ordem».46

Daqui em diante vai se articulando um processo que, transposto ao plano do temporal, deve ser visto necessariamente como sucessivo e gradual, e que compreende o conhecimento de sete, nove, ou mais estágios, segundo as diferentes tradições, e que são simbolizados sob a forma de pirâmide no espaço, ou no plano, com a espiral – ou com a dupla espiral – ou com um jogo de círculos concêntricos (uns dentro dos outros), que podem ser sintetizados em três grandes círculos ou níveis, correspondentes aos graus de aprendiz, companheiro e mestre, e aos subgraus que porventura existissem entre um e outro destes estágios.

E em seguida, na nota 79, acrescenta:

Na Tradição Hermética costuma-se tomar às vezes estes graus como sendo dez, os sete primeiros referentes à de construção do ser ou do templo interno, o oitavo de passagem, o nono de conclusão da Obra, e o décimo, o de coroação da mesma ou virtual saída do cosmos ou da perspectiva espaço-temporal simplesmente humana, que foi se modificando pouco a pouco ao longo do processo.

Porque, efetivamente, esse processo é a vivência dos mistérios da Cosmogonia, que são os mistérios do Céu e da Terra revelados em suas estruturas sutis, e que o modelo simbólico da roda sintetiza e dá a conhecer por meio de sua didática. Também a Árvore da Vida Sefirótica47 expressa essas estruturas e é igualmente um modelo do Cosmos. De fato, a Roda e a Árvore da Vida constituem dois veículos herméticos por antonomásia, e não é por casualidade que seja neles, e em suas relações com as distintas artes e ciências tradicionais, que o nosso autor apoie grande parte de seu ensinamento da Cosmogonia. Abordaremos com mais amplitude o simbolismo da Árvore Sefirótica no capítulo dedicado ao Tarot dos Cabalistas.

Na verdade, à Roda e ao Árvore da Vida cabalística se associam as diferentes ciências e artes cosmogônicas, sintetizadas nas sete Artes Liberais: Gramática, Lógica, Retórica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia (na qual se deve incluir a Astrologia, pois ambas eram uma só na antiguidade).

A Alquimia é o aspecto operativo da Tradição Hermética, pois se refere às transmutações que ocorrem no interior da alma do adepto, daí que receba também o nome de Arte Magna ou Arte Real,48 pois de fato não há maior obra de arte que «a que possa fazer, cada um consigo, no fundo de seu coração».49

Estas últimas palavras pertencem ao capítulo III, chamado «Perspectivas da Arte», que constitui um estudo muito lúcido sobre a natureza da arte considerando-a da perspectiva da Tradição, por ser a que permite entender o papel que desempenha o homem como intermediário entre a ideia arquetípica e sua cristalização final no mundo e nele mesmo. Nada a ver então com a concepção que se tem da arte hoje em dia, que é mais a expressão da individualidade, ou «ego», do «artista», e um produto a mais do «marketing».50

Do ponto de vista tradicional a arte é uma atividade contemplativa e liberadora que pode levar ao homem ao Conhecimento através do desenvolvimento de todas suas possibilidades latentes mediante a recriação da Obra Cosmogônica, ou, sendo mais precisos, mediante a «imitação» da «ação» do Princípio criando o mundo pela ação luminosa de seu Verbo ou Logos.

Mas deve-se entender no que consiste essa «imitação», e para isso nada melhor que refletir sobre esta frase de A. K. Coomaraswamy que nosso autor muito oportunamente menciona:

As obras estão feitas com arte; não são arte.

É uma frase simples em sua formulação mas de uma grande senso de profundidade. Ou seja, a arte não está na obra executada, mas em quem a realiza, e ela é o símbolo da ideia transmitida pela arte de seu autor. E se a obra, por exemplo, é nada menos que o mundo, então não está nele a arte que deve ser imitada, mas esta reside no Ser ou grande Arquiteto que o concebeu com Sabedoria e a cria permanentemente mediante o instrumento de sua Inteligência, que se revela através da Beleza e da Harmonia do conjunto e de cada uma das partes que o compõem.

Por trás de todo ato criativo há um pensamento que o faz possível, ou seja, uma estrutura, uma base de ideias que se articulam de acordo com uma ordem preexistente, arquetípica, o modelo eterno, que se atualiza em cada ser humano que «compreende» que Isso é ele; tal compreensão é projetada na obra de arte que, qualquer que seja o material ou substância com que é realizada (tal qual a alma humana modelada pelo Espírito), aparecerá assim, em sua medida, como um modelo em escala da própria Harmonia universal.

Por isso mesmo, é imprescindível criar em nosso interior, e com a ajuda do símbolo, um estado que nos leve a realizar as possibilidades da compreensão,

necessárias para interpretar e vivenciar estes «segredos» da arte e do símbolo. Pois entre eles e nós só se acha uma muralha psicológica, que pode ser transposta em que pese a imensa dificuldade atribuível ao esquecimento e, mais do que tudo, à inversão total dos valores atuais sobre o mundo e o próprio homem, o qual, não obstante, hoje como ontem, nasceu para o conhecimento (p. 71-72).

Neste sentido, é mediante as operações da Alquimia, ou da Arte Magna – ou seja, operando e encarnando os conhecimentos e princípios revelados pela doutrina e pelos modelos herméticos–,51 que essa muralha psicológica chegará a ser superada, e, como consequência, poderemos levar esse modelo arquetípico para o nosso cotidiano, a nossa vida, que se converterá assim, por sua vez, em um veículo que permitirá projetá-lo e recriá-lo em nosso ambiente. Ao encarnar estas ideias, o homem de conhecimento, o mago e teurgo, qualquer que seja seu «ofício», passa a ser um desses pontos da circunferência que refletem perfeitamente o seu centro, e, neste sentido, converte-se por sua vez no centro para o «mundo» que ele mesmo gera por sua atividade sagrada e redentora.

Reiteramos: o realmente importante, o decisivo, não é a forma simbólica enquanto tal, mas o que ela encerra em seu interior, ainda que na verdade essa forma deve ter correspondência exata com a ideia que contém e a configura, pois do contrário não haveria possibilidade de que o símbolo fosse um suporte de conhecimento, já que nada poderia revelar então. O símbolo jamais é arbitrário.

Mas vejamos em seguida que nos diz nosso autor sobre algumas ideias referentes à arte, como uma «poética comprometida com o conhecer do homem», ao qual considera parte indispensável neste processo de interrelação e expressão perene, «onde a inteligência universal que ele mesmo reflete, manifestando-se como uma arte de indefinidas possibilidades, lhe dá a opção de ser tudo o que ele conhece».

O homem é o sujeito-objeto da verdadeira arte, e através dele se materializa a possibilidade da obra criativa, reflexo de uma obra mais vasta, na qual o homem está incluído. O mago – que tira coisas da substância informe, e, ao realizá-las, atualiza as possibilidades que esta tem em si, da mesma forma que as que ele mesmo porta interiormente – situado no centro de seu círculo ritual, é o criador do espaço onde se dão todas as suas possibilidades e as de sua obra. Este é seu cosmos, simbolizado pelo círculo, que cumpre também funções limitativas, além de protetoras. E sua imagem vertical, situada espacialmente no centro ou eixo da figura, é a mediação entre céu e terra; ou seja, a de um veículo entre o mundo invisível das ideias e a manifestação horizontal e material das mesmas, através de uma gestação ou encarnação das potencialidades do ser, no plano intermediário, que hão de refletir-se no ato criativo.

Este homem é o artista («nome com o qual também gostavam de autodenominar-se os alquimistas»), indivíduo de ofício e de conhecimento, que recria o mundo através de sua atividade redentora, ao vivificar as potencialidades que todo homem leva em si mesmo de forma latente e toda substância de maneira imanente. Conecta-se, assim, com o ritmo de todas as coisas, o ritmo universal («a expressão ritmada ou rima é própria da poética, assim como da música e da dança»), e sua obra constitui a passagem entre o incriado e o criado, como uma síntese que manifesta à unidade, para imediatamente plasmá-la na multiplicidade das formas. O que equivale a assimilá-las analogamente a um duplo movimento de concentração-expansão, de expressão energética centrípeta-centrífuga, yin-yang, solve-coagula, sempre presente em todas as coisas, e que faz com que o artista vibre como um diapasão harmônico em sua conexão vertical, que necessariamente deve irradiar-se no plano horizontal.

Um acréscimo: é difícil não ver nestas palavras de nosso autor sua própria atividade criando sua obra, que naturalmente inclui a escrita e a oral, mas também tudo quanto ele mesmo, mediante seu trabalho como veiculador do Ensinamento Tradicional, propiciou para gerar um «espaço», um marco, no qual as pessoas interessadas nestes trabalhos possam ter uma referência doutrinal, um eixo, para desenvolver suas próprias potencialidades criativas com relação à Arte e à Ciência Sagradas. Continuemos com a citação:

E esta conversão de energia estática em dinâmica, que vai do um ao múltiplo, tem sua réplica instantânea na ação inversa, a da reciclagem do múltiplo ao um, já que a obra de arte concebida e executada se transforma por sua vez em objeto estático, e é contemplada por outro homem, que a partir de ela, como coisa criada, remonta ao ato criativo e à revelação da ideia – o arquétipo – inspiradora, que originou todo o processo.

Nesse trabalho transmissor, onde o ser humano como sujeito dinâmico – neste caso, o artista – recebe, emite e dá lugar ao objeto ou símbolo revelador, que por sua vez retransmite a energia originária, convertendo-se assim em um suporte, em um veículo apto para a compreensão, reside o mistério da arte. Em suma, o mistério do homem, ou de toda a criação – já que este processo é válido para qualquer manifestação – a qual se expressa sempre sob forma rotativa ou cíclica.

Queremos recordar aqui a fecundação pela palavra, e a já mencionada do Verbo ou Logos como origem da manifestação. E também a de Purusha como princípio ativo e Prakriti como princípio passivo ou substancial da criação universal.

O artista, mago, xamã ou demiurgo, é também o rei ou imperador de um espaço onde ele é o eixo ou centro. E estando tudo concatenado na vida universal, havendo sempre algo preexistente, e, de maneira análoga, algo que deve ser preexistente para outros – que abrirão os olhos depois de nós – cada gesto ou atitude moverá energias indefinidas, algumas delas visíveis ou de um historicismo evidente, mas a maior parte será invisível, nem sequer conhecida, em última instância, por aqueles mesmos que participam nelas.

A lei de correspondência sempre atua, como não poderia deixar de ser, já que se trata de uma lei universal. E, a vontade de ser cria um novo espaço onde a obra criativa ou o reino florescem, pois onde não havia nada além de um amorfo, ou de um vazio, a substância universal virgem para ser fecundada pela energia positiva, agora se gerou um mundo, que já estava contido nessa substância de um modo passivo. E assim o que era passivo será agora ativo, e a energia ativa, que funcionou como um detonador, se converterá em um símbolo, ou objeto estático criado, que levará implícito em si a energia ativa original, sintetizada em forma passiva ou potencial, disposta a ser vivificada, para poder adquirir assim uma nova configuração espaço-temporal, entre a bipolaridade do eixo de uma esfera, ou do ponto original e da circunferência de um círculo, ou do centro e da periferia móvel de uma roda.


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NOTAS

* Capítulo do cap. I do livro de Francisco Ariza: La Obra de Federico González Frías: Simbolismo, Literatura, Metafísica. Libros del Innombrable (Livros do Inominável), Zaragoza 2014.( original castellano).

28 Também este símbolo aparece extensamente tratado em Simbolismo y Arte, e de maneira mais específica, em seu primeiro capítulo, do qual tomaremos certos fragmentos para ilustrar algumas das ideias que tentaremos desenvolver no presente capítulo.

29 O mesmo acontece com a unidade aritmética no que se refere ao resto do números, todos os quais emanam, por adição ou soma, dela mesma.

30 Capítulo V, págs. 125-126. Nosso autor fala nelas dos três pilares que formam a Árvore da Vida cabalística, à qual menciona extensamente no capítulo V, entrelaçando seu simbolismo com o do Tarot, como já se disse. O eixo vertical se corresponde com o «pilar do meio» enquanto que o pilar da direita e o pilar da esquerda estariam relacionados respectivamente com a energia centrífuga e centrípeta presentes no plano horizontal.

31 O «Invariável Meio» ao qual aludem as tradições extremo-orientais resume perfeitamente tudo isso: ele é o Centro imutável onde se exerce a «Atividade do Céu». E a esta ideia se referem também as tradições hindu e budista quando aludem ao dharma, que é precisamente o reflexo dessa «ação do Céu», ou do Princípio, na manifestação e em cada um dos seres que a integram. Da ideia de equilíbrio se desprende também a de justiça, indissoluvelmente ligada por sua vez à ideia de virtude. Entre os antigos egípcios esse equilíbrio, ligado à justiça, é o que marcava a perfeita horizontalidade dos dois pratos da balança na «pesagem» das almas post-mortem, tal e como era praticada diante de Osíris, em sua representação como Juiz dos Mortos. Neste sentido, Platão nos diz que: «a virtude consiste em um justo meio entre dois extremos», o que nos faz recordar aquele lema dos antigos maçons: «na via da virtude não há caminhos»; e não os há porque o único caminho é a própria virtude, mas entendida em seu sentido mais alto, que está contido em sua própria etimologia: do sânscrito virya, «força ou energia espiritual». Essa energia espiritual, e sua influência, é a ação vivificante do Princípio no ser humano.

32 Se o centro simboliza o espírito e a circunferência o corpo, os raios que conectam a ambos, e que geram todo o espaço ou «campo» da roda, simbolizariam a alma, que por isso mesmo tem esse caráter intermediário que todas as tradições lhe atribuem. Isto é válido para o macrocosmos e o microcosmos.

33 Introdução à Ciência Sagrada. Programa Agartha, capítulo «A Via Simbólica».

34 Simbolismo y Arte, capítulo I. Recordemos que a geometria é o «corpo» do número, pois este, em si mesmo, é irrepresentável. Nos referimos naturalmente ao «número-ideia» de que falavam Pitágoras e Platão. Para os antigos gregos os números estavam representados por pontos, como podemos apreciar na Tetraktys.

35 Federico menciona neste ponto explícitamente ao grande metafísico neoplatônico cristão Dionísio Areopagita, o qual dizia que na medida que as linhas retas estão mais próximas do centro a união é mais íntima e, ao contrário, quanto mais distanciadas estão dele maior é a separação.

36 Ressaltemos neste sentido que esse «lugar» central sempre virgem é o estado chamado em diferentes tradições de «infância espiritual», ou «douta ignorância», em palavras de Nicolau de Cusa.

37 Se poderia questionar que na realidade esses raios ou círculos são indefinidos, mas a indefinitude nada poderia simbolizar salvo a ideia do indefinido, ou seja, o que não está definido, correspondendo assim a toda a extensão do conjunto da manifestação universal, e então cada raio, que é um ponto da circunferência, ou cada círculo, representaria a cada um dos seres e mundos que integram tal manifestação.

38 e acrescenta em seguida: enquanto que a iniciação ligada ao «quadrado de quatro se referia ao conhecimento da terra e constituia um passo para obter a primeira», ou seja a Tetraktys.

39 Em sentido estrito a lei de analogia é a relação que existe entre «o que está abaixo» e «o que está acima», segundo nos diz a Tábua de Esmeralda hermética em seu primeiro enunciado. O símbolo que melhor representa esta ideia é o «selo de Salomão» ou «estrela de David», constituído por dois triângulos entrelaçados, mas que indica claramente que o que está abaixo aparece como um reflexo do que está acima. Isso não quer dizer que o de abaixo, pelo fato de ser um reflexo, não tenha realidade alguma, mas que sua existência, ou seja, sua realidade, depende inteiramente do princípio que se espelha nele. Tal é a relação entre o Ser universal e o ser individual.

40 Das relações entre o plano universal (celeste) e o plano individual (terrestre) fala nosso autor no capítulo VIII, «Las dos mitades del modelo cósmico».

41 En el Vientre de la Ballena (No Ventre da Baleia). Textos Alquímicos.

42 Dentro da simbólica hermética, o círculo é substituído às vezes pelo triângulo (a pirâmide nas três dimensões), já que ambos são equivalentes, pois não esqueçamos que o nove, símbolo da circularidade, é múltiplo de três. Por isso mesmo, o triângulo (que é o delta maçônico) é também o símbolo do Espírito, do Ser Universal, implantado na tri-unidade dos princípios ontológicos, dos quai emana o quaternário, símbolo da terra e de tudo que faz referência ao terrestre. Teríamos que nos referir também à Tetraktys pitagórica, cuja forma, que é triangular, contém não obstante tanto o denário como o quaternário, cuja figuração simbólica é o círculo que contém dentro dele a cruz.

43 Capítulo III, nota 63.

44 Na nota 43 do capítulo II, nosso autor esclarece o sentido da «iluminação iniciática», que a tantos equívocos se presta: «É curioso destacar que muitas pessoas pensam que a iluminação é algo que se produz com coros sentimentais de violinos e harpas ou com uma música grave e solene, em um mundo cinematográfico, autocompassivo e pomposo. Outros crêem que chega casualmente ou como algo fulminante. Em ambas as versões deve notar-se que esta ‘iluminação’ vem de fora e ilumina ao sujeito em questão. Ou seja, que há um sujeito que ilumina e um objeto iluminado. Ao contrário, a iluminação se refere a um estado de consciência, onde as coisas e nós somos uma só identidade, sem confusão de nenhuma espécie. E onde uma iluminação distinta abarca todos os objetos, que simultaneamente brilham sob nova luz de um estado, que se acaba de descobrir, e que se traduz nesse conhecimento».

45 Na roda cósmica os raios, nome que faz patente sua vinculação com o celeste, são os «emissários que unem a terra com o céu. No caso do círculo são os ‘raios’ os que vinculam o centro à circunferência». Nota 30, cap. II.

46 René Guénon em Aperçus sur L’Initiation, mais especificamente no capítulo intitulado «Do ensinamento iniciático», não diz outra coisa muito diferente do que estamos dizendo aqui, quando manifesta que o símbolo: «é o único meio de transmitir, na medida em que se possa, tudo o que de inexpressável tem o domínio próprio da iniciação, ou melhor, para falar de modo mais rigoroso, de depositar as concepções desta ordem em germe no intelecto do iniciado, que deverá seguidamente fazê-las passar da potência ao ato, desenvolvê-las e elaborá-las por seu trabalho pessoal, porque ninguém pode fazer outra coisa além de prepará-lo, traçando-lhe, graças a fórmulas apropriadas, o plano que ele deverá realizar em si mesmo para chegar à posse efetiva da iniciação que recebeu do exterior tão só de maneira virtual».

47 Existe um esquema da Árvore Sefirótica em forma de roda de oito raios, que nosso autor reproduz no capítulo VI (p. 150), junto a outros esquemas relacionados com a Árvore da Vida.

48 O processo alquímico encontra uma série de correspondências e analogias muito precisas com o simbolismo construtivo, que forma parte muito importante também da Tradição Hermética, uma de cujas ramificações é a Maçonaria (de origens artesanais), também chamada «Arte Real». Ver, neste sentido, nosso livro Maçonaria. Símbolos e Ritos, onde falamos abundantemente dessas relações entre o simbolismo construtivo e a Alquimia.

49 Acrescentaremos, recordando o que nosso autor diz a respeito no capítulo VI, que a roda está associada também com o fogo, e assim se fala em numerosas tradições de «rodas de fogo», ou do fogo que está no meio da roda, e dá a esta movimento e vida. «O carro do sol» é uma forma simbólica de explicar o transcurso do astro rei pelo universo, iluminando-o com seu fogo, fonte de sua luz e calor. Esse «carro solar» atravessa toda a eclíptica passando pelos doze signos do zodíaco «ou roda da vida». E, com relação à nota anterior, é interessante determo-nos na expressão alquímica «fogo de rota», que como diz Federico «é imprescindível para a transmutação segundo alguns alquimistas medievais». De fato, esse fogo de roda está relacionado com o tempo que a «matéria de obra» necessita para sua perfeição, fogo que é movido por sua vez pelo fogo interno ou «secreto», o qual obviamente se refere ao fogo arquetípico, que mora no centro ou princípio ígneo que dá vida a todo o manifestado, do mais sutil até o mais concreto. Os rosetões das catedrais góticas se chamavam rota, e estavam associados com o fogo de roda, como muito bem podemos comprovar por seus desenhos.

50 Destaca nosso autor neste capítulo III: «A arte não é algo rapido, nitidamente esnobe ou classista, relacionado com o triunfo na vida e com o êxito. Uma atividade para ‘prontos’ que, motivados por certas facilidades, se sobrevalorizam sem recordar que, por outro lado, qualquer um que tenha estas disposições naturais em um ou outro campo, nem todos hoje considerados como ‘artísticos’ [«Na cozinha, na jardinagem, na medicina, na caça, nos jogos de mãos, no cálculo aritmético, etc.]».

51 No Programa Agartha (capítulo «O Artista», Módulo II) lemos o seguinte com relação a isso: «O processo de aprendizagem é hierárquico e provê o artista da linguagem simbólica. Inclui as ciências e as artes sagradas. Trata-se da Alquimia do próprio ser e de um verdadeiro caminho de iniciação».



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